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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A DELEGADA GOIANA QUE ROMPEU UM TABU



Mudança de sexo parece ter pegado de surpresa os colegas da Polícia Civil. Comentários internos da corporação dão conta que Thiago, agora Laura, era bastante "másculo" para "chegar ao ponto" de virar mulher.

Reprodução/Facebook













A transexualidade, diferentemente da homossexualidade, é um assunto ainda pouco discutido no meio social e midiático. O espaço que os transexuais possuem na sociedade é ínfimo em relação a outras minorias sociais. Em Goiás, a delegada de polícia Laura de Castro Teixeira, antes Thiago de Castro Teixeira, resolveu realizar o procedimento cirúrgico para mudar de sexo. Após processo de relocação de delegados da Polícia Civil, ela deverá integrar em fevereiro a equipe da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam-Goiânia).
A notícia parece ter pegado de surpresa os colegas da corporação. Os comentários internos da Polícia Civil dão conta que Thiago era “bastante másculo” para “chegar ao ponto” de se tornar um integrante do sexo feminino. Roupas masculinas e a barba por fazer davam crédito total à masculinidade da agora delegada. Inclusive, Laura já foi casada com uma mulher, com quem teve dois filhos.
O delegado adjunto Daniel Felipe Adorni da Diretoria da Polícia Civil de Goiás afirmou que a corporação goiana enxerga o caso com “naturalidade”. “Para nós, problema é policial corrupto, truculento, omisso", declarou. O delegado acrescentou também que as mudanças de sexo e de nome da delegada não alteram seu vínculo com a corporação, visto que a situação jurídica de Laura permanece inalterada.
A advogada Chyntia Barcellos, vice-presidente da Comissão Especial da Diversidade Sexual do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e presidente da Comissão de Direito Homoafetivo da Seção de Goiás da OAB, comemorou a notícia. “Sinto uma alegria imensa de poder presenciar esses avanços, especialmente por ser na minha cidade, Goiânia. Acredito que esta história incrível servirá de exemplo para outras pessoas que têm o mesmo desejo, mas preferem não mudar de sexo por convenções sociais”, analisa Chyntia.
Laura já se transformou em um exemplo na luta pela causa homossexual. Liorcino Mendes, presidente da Articulação Brasileira de Gays (Artgay), afirmou via rede social que o movimento LGBT de Goiás fica feliz com a notícia e vê um avanço importante no caso da delegada. "Parabéns, Goiânia tem a primeira delegada de Polícia Transexual do Brasil. Viva as mulheres transexuais", publicou na sua página do Facebook.

Transgenitalização e a hipocrisia social 
A sexualidade humana é muito mais complexa e peculiar do que uma inocente divisão em duas partes. Entretanto, o ser humano nasce em “caixas sociais”, ou você pertence ao sexo masculino ou feminino. Meninos gostam de meninas, e casam com elas; esta é a lógica. Relacionar-se com pessoas do mesmo sexo já é “problema” o suficiente; almejar a genitália alheia então... um sacrilégio dos mais desagradáveis.
A transexualidade é encarada pelos fanáticos religiosos (ou nem tão fanáticos) como uma “abominação”, e grande parte da população avalia a condição como um simples processo de automutilação. Optar pela troca de sexo não é uma decisão tomada da noite para o dia. Além do preconceito (dos outros e de si mesmo) e da fobia social, transexuais passam a vida ingerindo medicamentos que controlam a taxa hormonal.  Não é simplesmente “colocar” ou “tirar” algo.
As pessoas que desejam a transgenitalização conhecem os riscos e as consequências do procedimento, e, mesmo assim, decidem fazê-lo; não por capricho, mas porque a dor de pertencerem a um corpo que não o seu é muito maior do que as dores de um procedimento cirúrgico.
Se um erro biológico ou divino, o fato é que transexuais necessitam de auxílio médico por toda a vida, e também psiquiátrico. Mas não apenas no momento em que resolvem realizar a transgenitalização. Impossibilitadas de expressarem sua real condição sexual, elas são obrigadas a passar grande parte da vida sendo quem não são, e para ser quem querem ser necessitam de condições financeiras asseguradas. Muitas, oriundas de famílias humildes, não possuem condições de realizar a cirurgia e acabam enveredando pela prostituição. Não que este seja um caminho “indigno”, mas o fato é que a fobia social para com as transexuais não lhes dão muitas opções. 
O mercado de trabalho é vedado às transexuais, salvo raras exceções - como é o caso da delegada goiana. Marginalizadas e esquecidas pelos familiares, as oportunidades de emprego são escassas. Pense bem! Quantas professoras ou médicas transexuais você conhece? Você já contratou alguma para trabalhar em sua casa ou em sua empresa?
Também por esse motivo a coragem da delegada deve ser louvada e prestigiada. Ela conseguiu romper paradigmas ainda presentes nas forças oficiais, onde a homossexualidade e a transexualidade não têm vez, pois, remetem à ausência de virilidade - visão esta que se desvencilha do real com a presença feminina massiva em cargos de comando.
Assim como tantas outras minorias que ganham o seu espaço em sociedade, as transexuais merecem ser aceitas e respeitadas. Elas são, sem “mas”, mulheres, e, como tais, devem ser incluídas em todas as conquistas alcançadas pela classe feminina ao longo dos anos. A mudança de sexo já é possível faz tempo, o que falta agora é a mudança de mentalidade. 

Reportagem retirada na íntegra:

sexta-feira, 24 de junho de 2016

GÊNERO E DIVERSIDADE SEXUAL NAS ESCOLAS: UMA QUESTÃO DE DIREITOS HUMANOS

A ciência mostra que esse tipo de debate deve ocorrer, mas religiosos insistem em adiar o reconhecimento da dignidade de grupos excluídos

por Vanessa Alves Vieira, Bernardo Fonseca Machado, Michele Escoura Bueno e Ana Paula Meirelles Lewin — publicado 17/07/2015 04h20, última modificação 17/07/2015 11h09

Fábio Arantes / Secom-PMSP
Secom

Concentração da Parada LGBT em São Paulo, em maio. Esse grupo da população é historicamente discriminado e passa pela educação a resolução deste problema

A Constituição Federal Brasileira, promulgada em 1988, em seu artigo 6º estabelece que a educação é um direito de todas e todos e, ainda, que condições para acesso e permanência escolar devem ser garantidas pelo Estado.
Entretanto, pesquisas científicas vindas dos mais diversos campos disciplinares mostram que grupos específicos da população são continuamente afastados da escola. As altas taxas de evasão escolar masculina (37,9% dos homens segundo dados do IBGE em 2011) têm sido apontadas como consequência de referenciais de masculinidade difundidos socialmente.
Uma identidade masculina baseada na agressividade, na indisciplina e em noções hierarquizadas do que é ser homem ou mulher tem, segundo esses últimos estudos, reproduzido uma cultura de violência e afastado os meninos dos bancos escolares..
Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTs) compõem outro grupo populacional que tem seu direito fundamental à educação violado, com, igualmente, altas taxas de evasão escolar. Em razão da total invisibilidade dada ao problema, órgãos governamentais ainda não dispõem de indicadores que possam medir o tamanho estatístico dessa exclusão escolar.
No entanto, pesquisas qualitativas sinalizam a recorrência com que a exclusão escolar aparece nas trajetórias de vidas das pessoas LGBT e são sempre associadas ao ódio e à violência perpetrados contra essa população, dentro do ambiente escolar.
O que as investigações acima citadas fazem em comum é identificar as discriminações de gênero como causas para processos de exclusão escolar. As pessoas que não se submetem aos padrões de feminilidades, masculinidades e orientações sexuais encarados como normais, a partir da ótica dos padrões sociais dominantes, são reiteradamente expostas, no ambiente escolar, a violações de direitos, agressões físicas e verbais e discriminações de todo tipo. Suas diferenças convertem-se em reais desigualdades.
Por exemplo, a Defensoria Pública de São Paulo recebe várias denúncias de discriminações nas escolas, sendo as principais delas: a recusa de utilização do nome social, o desrespeito à identidade de gênero de travestis e transexuais, a prática reiterada de insultos contra pessoas integrantes da população LGBT e agressões físicas ou ameaças contra mulheres.
Ao contrário de “ideologias” ou “doutrinas”, sustentadas por crenças ou fé, o conceito de gênero está baseado em parâmetros científicos de produção de saberes sobre o mundo e busca identificar processos históricos e culturais que classificam as pessoas a partir de uma relação sobre o que é entendido como feminino e masculino.
Museu da Diversidade Sexual

Imagem do Museu da Diversidade sexual
 Estudos científicos têm sido desprezados no debate sobre educação
Estamos nos referindo a um operador que cria sentido para as diferenças percebidas em nossos corpos e articula indivíduos, emoções e práticas dentro de uma estrutura de poder que pode, entre outros, refletir-se na exclusão escolar.
Nos últimos meses, porém, em vez de nos depararmos com a aprovação de planos de educação que levassem em conta tais pesquisas e validassem o princípio constitucional de construção de um país mais justo e igualitário, foi reacesa a cruzada contra a igualdade de gênero.
Partindo de argumentos falaciosos e distorcendo um debate consolidado há décadas no campo intelectual nacional e internacional, grupos religiosos têm sistematicamente ignorado o princípio da laicidade do Estado, censurando qualquer menção às categorias “gênero” ou “orientação sexual”, especialmente nos planos locais de educação. Agindo dessa maneira, o objetivo acaba sendo adiar por mais dez anos o reconhecimento da dignidade humana de grupos historicamente excluídos e de seu direito fundamental à educação.
Temos assistido a essa tentativa de retrocesso e não podemos nos calar frente às investidas para barrar as metas de combate às desigualdades sociais. Ao contrário do que se tem deliberadamente divulgado, falar em uma educação que promova a igualdade de gênero não significa anular as diferenças percebidas entre as pessoas, mas garantir um espaço democrático, onde tais diferenças não se desdobram em desigualdades, hierarquias ou marginalizações.
É hora de exigir que o direito à educação seja assegurado a qualquer cidadã ou cidadão brasileira/o e, para isso, políticas de combate às desigualdades de gênero e sexualidade precisam ser implementadas e o exercício da cidadania, garantido. 
*Vanessa Alves Vieira é coordenadora do Núcleo Especializado de Combate a Discriminação Racismo e Preconceito da Defensoria Pública de SP. Bernardo Fonseca Machado e Michele Escoura Beuno são pesquisadores do Núcleo de Estudos dos Marcadores Sociais da Diferença (Numas – USP). Ana Paula Meirelles Lewin é coordenadora do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública de SP. Esse texto é baseado no Manifesto pela igualdade de gênero na educação, assinado por mais de 110 instituições científicas e de promoção de direitos do Brasil.

Reportagem retirada na íntegra:

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

EDUCAÇÃO SEXUAL: PRECISAMOS FALAR SOBRE ROMEO...

 

...Iana, Roberta e Emilson. A escola trata com preconceito quem desafia as normas de papéis masculinos e femininos.




Romeo foi banido do contraturno por preferir vestidos às roupas masculinas. Foto:Newsteam/SWNS Group / Grosby Group"



 
O pequeno Romeo Clarke, da foto acima, tem 5 anos e adora usar seus mais de 100 vestidos para as atividades do dia a dia. "Eles são fofos, bonitos e têm muito brilho", explicou ao tabloide britânico Daily Mirror. Clarke virou notícia em maio do ano passado. O projeto de contraturno que ele frequentava na cidade de Rugby, no Reino Unido, considerou as roupas impróprias. O menino ficou afastado até que decidisse - palavras da instituição - "se vestir de acordo com seu gênero".

O caso de Clarke não é único. Situações em que crianças e jovens que descumprem as regras socialmente aceitas sobre ser homem ou mulher - seja de forma intencional ou por não dominá-las - fazem parte da rotina escolar. Quando eclode o machismo, a homofobia ou o preconceito aos transgêneros, pais e professores agem rápido para pôr panos quentes e, sempre que possível, fazer de conta que nada ocorreu. "A escola, que deveria abraçar as diferenças, pode ser o ambiente mais opressivo que existe", defende Iana Mallmann, 18 anos, ativista contra a homofobia. "Muitos ainda abandonam as salas de aula por não se sentirem bem nesse espaço", completa Beto de Jesus, secretário para América Latina e Caribe da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, pessoas Trans e Intersex (Ilga, na sigla em inglês).

Paradoxalmente, quem tem ensinado a escola a agir no respeito à diversidade são os próprios estudantes. "Na contemporaneidade, multiplicaram-se os grupos, os sujeitos e os movimentos, as maneiras de se identificar com gêneros e de viver a sexualidade. Não há apenas uma forma de ser, mas tantas quantas são os seres humanos", afirma Guacira Lopes Louro, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e uma das principais referências na área de estudos de gênero. É o que mostram os corajosos depoimentos de Iana, Roberta e Emilson. Eles nos convidam a uma reflexão sobre nossas próprias ideias de masculino e feminino, hétero, homo ou bi, coisas de menino e coisas de menina. Precisamos falar sobre sexo, sexualidade e, sobretudo, gênero.

 


Três ideias, três conceitos
 


Vale desfazer a confusão entre esses conceitos. O sexo é definido biologicamente. Nascemos machos ou fêmeas, de acordo com a informação genética levada pelo espermatozoide ao óvulo. Já a sexualidade está relacionada às pessoas por quem nos sentimos atraídos. E o gênero está ligado a características atribuidas socialmente a cada sexo.

O que se sabe hoje em dia é que o dualismo heterossexual/homossexual não é capaz de abarcar as formas de desejo humanas. Os estudos sobre o tema dizem que a orientação sexual se distribui num amplo espectro entre esses dois polos. É provável que a definição sexual se dê pela interação entre fatores biológicos (predisposição genética, níveis hormonais) e ambientais (experiências ao longo da vida). Mas não há certezas. O guia Sexual Orientation, Homossexuality and Bissexuality, da Associação Americana de Psicologia, resume: "Não foram feitas, por enquanto, descobertas conclusivas sobre a determinação da sexualidade por qualquer fator em particular. O tempo de emergência, reconhecimento e expressão da orientação sexual varia entre os indivíduos".

É surpreendente notar como determinados comportamentos são mais aceitos em uma fase da história e reprimidos na seguinte. Os moradores da Grécia Antiga, por exemplo, se relacionavam com pessoas de ambos os sexos. Já na Idade Média, comportamentos que se desviassem da norma socialmente definida eram punidos com a fogueira. Hoje, não há mais chamas, mas o sofrimento assume a forma de piadas, humilhações, agressões físicas e psicológicas, exclusão. Por que ainda agimos assim? Como se construiu uma sociedade que se choca e entra em pânico ao ver um menino se vestindo de menina?

A resposta está no conceito de gênero. Ele diz respeito ao que se atribui como características típicas dos sexos masculino e feminino. Meninas precisam sentar-se de pernas fechadas, meninos podem abri-las. Meninos não podem chorar, meninas são mais sensíveis. Meninos gostam de azul, meninas preferem o rosa. Enfim, uma série de aspectos que, com o tempo, ganham força e se convertem em regras. Por quê?

Porque cada um de nós interioriza as estruturas do universo social e transforma-as em jeitos de ver o mundo que orientam nossas condutas. Diversas instâncias atuam para que essas normas sejam transmitidas dos mais velhos aos mais jovens: a família, os grupos de amigos, as religiões - e, claro, as escolas. No caso do gênero, a associação com elementos preexistentes, como tradições culturais, preceitos religiosos e costumes familiares, vai definindo quais elementos pertencem ao universo masculino ou ao feminino. Por exemplo: ao provar do fruto proibido e convencer Adão a também comê-lo, Eva teria mostrado o lado irracional e sentimental da mulher. Por isso, sedimentou-se a ideia de que ela deveria estar submissa ao homem - naturalmente, um ser racional e cerebral, como explica a pesquisadora Clarisse Ismério no artigo Construções e Representações do Universo Feminino (1920-1945). Mais exemplos: a associação de carros e motos como "coisa de macho" foi herdada da ideia vigente até o início do século 20 de que o espaço público deveria ser ocupado pelos homens, enquanto as mulheres deveriam se dedicar à vida doméstica, como faziam suas mães. Já a atribuição das cores rosa e azul, respectivamente, a meninas e meninos... Bem, essa aí parece não ter justificativa. Nenhuma surpresa: a investigação sócio-histórica revela que na gênese de muitos hábitos, costumes e regras impera a mais pura arbitrariedade.

Tudo isso se complica em razão de outra característica da mentalidade moderna: a tendência de pensar por oposições. Segundo o filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004), a lógica ocidental opera por meio de binarismos: feio/belo, puro/impuro, espírito/corpo etc. "Um termo é sempre considerado superior, e o oposto seu subordinado", explica Guacira. Assim, o homem heterossexual conquistou o lugar de maior prestígio na sociedade. Um degrau abaixo, a mulher. E na penumbra, os que não se encaixam no esquema binário: gays, lésbicas, bissexuais, travestis...

Até meados do século 20, esse discurso circulou quase sem contestações. A partir dos anos 1950, movimentos feministas, guiados pelos estudos da filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), engrossados na década seguinte pelos hippies e outros levantes da contracultura, começaram a colocar em xeque os papéis atribuídos às mulheres na sociedade, no trabalho e na família. Seguiram-se a eles as lutas pelos direitos de homens gays, lésbicas, travestis, transexuais e assim por diante entre 1970 e os anos 2000. Atualmente, correntes contestatórias ampliam as possibilidades identitárias, defendendo que há muitos jeitos de ser homem e mulher.

Você deve estar se perguntando onde a escola entra nessa discussão. Para que ela respeite a diversidade, as formações de professores precisam abordar o assunto. É o melhor caminho para disseminar o que as pesquisas já descobriram sobre a construção dos gêneros e sua relação com o sexo e a sexualidade. Mas as iniciativas sofrem forte resistência. O caso mais notório aconteceu em 2011. Como parte do programa Brasil sem Homofobia, especialistas produziram para o governo federal cadernos com conteúdo pedagógico que colocavam o tema em discussão.

A intenção era que o material fosse distribuído a escolas de todo o país. Antes da impressão, entretanto, congressistas ligados a entidades religiosas se opuseram ao projeto. Apelidado de "kit gay", o conteúdo foi acusado de estimular "a promiscuidade e o homossexualismo" - termo em desuso por remeter a doença (hoje, fala-se em homossexualidade). A União cedeu às pressões e vetou a circulação dos cadernos. Oficialmente, não há perspectivas para que esse material saia do armário. Mas, agora, ele está disponível aqui no site NOVA ESCOLA. Leia e tire suas conclusões.

Por enquanto, episódios como o do menino Romeo seguem envoltos pela vergonha. Mesmo em casos de crianças muito pequenas, em que não há relação entre o comportamento da criança e sua sexualidade (meninos mais sensíveis ou meninas que prefiram o futebol às bonecas), o expediente-padrão é convocar os pais para uma conversa sobre o suposto problema e encontrar maneiras de "corrigi-lo". "Muitas vezes, essas crianças e jovens apanham dos pais, são proibidos de voltar às aulas ou mesmo fogem", relata Constantina Xavier, professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). É papel da escola agir com profissionalismo. O que, nesse caso, significa tratar o tema com naturalidade e não reportá-lo aos pais. Um menino quer se vestir de princesa. Se há algum problema, é com os olhos de quem vê. Como ensina Georgina Clarke, a mãe do pequeno Romeo: "Não me importo. Faz parte de quem ele é. Se usar os vestidos faz com que ele seja feliz, então está tudo bem para mim".



Reportagem retirada na íntegra:





sábado, 27 de dezembro de 2014

UNILAB PODE TER A PRIMEIRA REITORA TRAVESTI DO BRASIL.





A Unilab, Universidade Federal de Integração da Lusofonia Afro-Brasileira, teve a primeira reitora negra de uma universidade federal no país, Nilma Lino Gomes, recentemente afastada para assumir o a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República. Agora, os estudantes da universidade se organizam e pedem ” Queremos Luma Lá”.


Professora Luma Nogueira de Andrade, homenageada no Encontro Regional LGBT de Russas-CE


Luma Nogueira de Andrade, Doutora em Educação pela UFC- Universidade Federal do Ceará, mestra em Desenvolvimento e Meio Ambiente, é a primeira doutora travesti do Brasil e também a primeira professora universitária travesti. Luma vem dos movimentos sociais, compreende as demandas por diversidade, cada dia mais necessária de serem compreendidas pelas Unilab, uma universidade que reúne brasileiros e luso-africanos.


Professora Luma com formando da primeira turma do Bacharelado em Humanidades da Unilab


O recém indicado governador do Ceará, Cid Gomes, é quem escolherá o novo reitor ou nova reitora da Universidade. Esperamos que ele compreenda as demandas dos estudantes e atenda a este pedido coletivo. Segundo Kaio Lemos, aluno do Bacharelado em Ciências Humanas da Unilab, ter a primeira reitora travesti é o caminho lógico da universidade que vem demonstrando pioneirismo no sentido de empoderar minorias historicamente marginalizadas.

Luma é uma reconhecida intelectual pela comunidade acadêmica, além de ser aberta ao diálogo e a construção coletiva de uma educação interdisciplinar e para a diversidade.

A eleição ou escolha de Luma Nogueira de Andrade para a reitoria da Unilab representa um imenso avanço no empoderamento e visibilidade trans. Por isso, como trans não binária que sou, peço e vocês, façamos Cid Gomes saber que a Unilab quer Luma!

Os alunos prometem protestos e prometem organizar arduamente para que a professora Luma seja a nova Reitora da Unilab.

                                   
                       Reportagem retirada na íntegra:




segunda-feira, 11 de agosto de 2014

VÍDEO SOBRE DIVERSIDADE SEXUAL, PRECONCEITO E ESTEREÓTIPO NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA.





CINE INCLUIR: LAURENCE PARA SEMPRE








Sinopse


Laurence (Melvil Poupaud) é um homem que deseja se tornar uma mulher. Em seu aniversário de 30 anos, ele revela para sua namorada Fred (Suzanne Clément) que irá fazer uma cirurgia de mudança de sexo. Mesmo abalada com a revelação, a namorada resolve permanecer ao lado da pessoa que ama, que sofrerá bastante com a nova situação, tendo que lidar com preconceitos de familiares, amigos e colegas de trabalho. Contra tudo, eles tentarão provar que o amor deles pode superar todas as situações. (Duração: 168 minutos).



sexta-feira, 11 de julho de 2014

PROFESSOR UNIVERSITÁRIO AMERICANO PUBLICA CONTO DE FADAS COM ROMANCE ENTRE DOIS RAPAZES

10/07/2014 6:00 - ATUALIZADO - 10/07/2014 - 9:30.

POR EDUARDO VANINI.

Livro infantil narra a história de dois rapazes, com direito a casamento na igreja. Autor planeja tradução para o português.




Livro tem casamento entre dois rapazes em meio a um reino - Divulgação


RIO - No reino mágico de Evergreen, a princesa Elena é sequestrada por uma bruxa. Em resposta, seu pai, o Rei Rufus, lança o desafio: quem salvar a beldade terá o direito de se casar com ela. Os jovens Gallant e Earnest resolvem, então, encarar a missão. E aí termina o caráter convencional da trama. Durante a busca, os dois homens se apaixonam e, no fim, acabam se casando com pompa na igreja.

O conto de fadas contemporâneo é narrado no livro infantil "The princes and the treasure" (“Os príncipes e o tesouro”, em tradução literal), de Jeffrey A.Miles. Professor da Escola de Negócios da Universidade do Pacífico, na Califórnia (Estados Unidos), ele teve a ideia há cerca de dois anos, enquanto assistia a uma apresentação com um príncipe e uma princesa num parque de diversões.

- Ao ver os atores cantando e dançando, me perguntei: por que não existe príncipe gay e princesa lésbica? Por que o príncipe não pode se casar com outro belo príncipe? E por que não há uma donzela em apuros sendo resgatada por uma linda princesa? - relembra o professor, que é gay e era um ávido leitor de contos de fadas quando garoto. - Ao voltar para casa, resolvi criar a minha própria história.



SEM BEIJO NO FINAL

Totalmente ilustrado, o livro não tem o tradicional beijo no final. Mas os protagonistas ganham matrimônio celebrado por um vigário numa igreja medieval. O final é feliz. Apesar do ineditismo, o autor diz que o retorno tem sido positivo.





Segundo Jeffrey, casais heterossexuais contaram que a história os ajudou a conversar com os filhos sobre homossexualidade. Já pais gays afirmaram que a obra serviu de apoio para falar com as crianças a respeito de seus próprios companheiros.

- O livro possibilita uma ótima maneira de abordar o assunto. Escrevi a história para ser romântica, e não sexual. Os pais dizem que a narrativa é ideal para as crianças, e o livro está entre os favoritos de várias delas - comemora o autor.

Apesar da aceitação, o trabalho não ficou livre de críticas. Entidades cristãs radicais internet afora acusam o livro de promover “propaganda homossexual”. Para Jeffrey, sua publicação avança no combate ao preconceito. Ele lembra o caso de um pai que disse ler o livro para seus filhos em meio aos outros contos de fadas, sem distinção.

- Se todo pai fizesse o mesmo, esta geração de crianças seria mais bem educada sobre a diversidade. A homofobia poderia ser extinta - cogita. - As crianças veem que o amor pode acontecer entre duas pessoas, independentemente do gênero. Estou espantado sobre como é fácil para elas compreender isso, ao passo que, para alguns adultos, ainda é tão difícil.

Lançado no primeiro semestre deste ano, o livro está à venda em 137 países. Uma continuação da história já está sendo escrita pelo autor e deve ser publicada em meados do ano que vem. Jeffery também trabalha na tradução da obra para outras línguas, inclusive para o português. No Brasil, por ora, é possível comprar as versões impressa e digital, em inglês, pela internet.



Reportagem retirada na íntegra:







sexta-feira, 29 de novembro de 2013

PARA A SOCIÓLOGA MIRIAM ABRAMOVAY, ESCOLAS NÃO SABEM COMBATER O PRECONCEITO CONTRA HOMOSSEXUAIS


Por Julia Carolina - iG/São Paulo -  - Atualizada às 


                                                                                                      Divulgação



A violência nas escolas não é um fenômeno atual. As agressões verbais, físicas, a discriminação e o ciberbullying são situações comuns no ambiente educacional e refletem o que a sociedade machista ainda estabelece como norma: o aluno branco, heterossexual, de classe média e de religião católica que é aceito.
Essa é a opinião de Miriam Abramovay, que coordenou diversas pesquisas da Unesco e atualmente coordena a Área de Juventude e Políticas Públicas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

Ao iG, ela debateu ainda o preconceito e a homofobia dentro do ambiente escolar e a dificuldade das instituições de ensino para lidarem com a questão. Confira a entrevista abaixo.

iG: O que é caracterizado como violência escolar? 

É interessante notar que não é só uma violência, mas muitas. Existe uma violência na escola e também a violência da escola. Sabemos que o espaço da escola não é um oásis, não é um local protegido. Então toda a violência que permeia a sociedade está na escola. Mas ela não só é responsável por reproduzir a violência, mas também produzir a sua própria violência.

Eu costumo separar em duas essas violências: a primeira é a chamada violência dura, que é aquela que vem do tráfico dentro da escola, do aluno que leva arma, causa brigas e morte. É aquela violência que encontramos no código penal. Ela chama muito a atenção, mas ainda não é o tipo de violência principal. É a microviolência que está no cotidiano dos estudantes, que é a agressão verbal, o preconceito e em alguns casos a agressão física.
A escola é um local onde as relações sociais são muito tensas, onde se estabelecem vários tipos de problemas, de contradições. Isso acaba aparecendo através do racismo, do preconceito, da homofobia. Geralmente é o aluno branco, heterossexual, de classe média, de religião católica que é aceito, essa é a norma.

iG: E isso pode contribuir para evasão escolar? 

A instituição escolar enfrenta muitas dificuldades para lidar com isso. Ela não consegue absorver os seus alunos, principalmente os adolescentes. Muitas vezes acaba o expulsando da escola, não aceitando as suas formas de ser jovem, não trazendo discussões que o interessem.


iG: Existe hoje uma exposição da violência na escola, como brigas que são gravadas e colocadas na internet. Qual é o efeito disso? 

Essa sociedade do espetáculo em que vivemos tomou vida com isso. E trouxe o ciberbullying. Não é um fenômeno do Brasil. Temos que contextualizar isso dentro de uma sociedade que precisa aparecer, principalmente os jovens. Fiz um trabalho com gangues de meninas e isso acontece muito, quanto mais você aparece, mais você é notado.

O que me chama atenção é a quantidade de vídeos de meninas, é um fenômeno mais recente e isso é muito grave. Às vezes, uma briga acontece e acaba dentro do ambiente escolar, mas quando coloca no YouTube é uma humilhação global e por muito tempo. É algo muito pouco discutido nas instituições de ensino. Mesmo que aconteça na porta da escola, não importa, são alunos, então precisa ser trabalhado, precisa ser discutido.

iG: Em uma pesquisa divulgada neste ano, quase metade dos professores afirmou que já sofreu agressão dentro da escola. A figura do professor é respeitada? 

Quando sai uma pesquisa a gente tem que tomar cuidado, porque é somente uma face da questão e do problema. Existe um problema com a nossa educação, uma questão de não reconhecimento do papel do professor, e não é só por parte dos alunos.

Estou fazendo uma pesquisa agora para o Ministério da Educação (MEC) em escolas públicas e me chamou atenção que não teve nenhum aluno que falou que gostaria de ser professor. Acho que o modelo da escola, como ela está funcionando, não está servindo para o jovem do século 21. Ela acaba sendo uma escola sem interesse, desagradável.

iG: O que é preciso fazer para mudar esse quadro? 

Precisamos de uma política pública pensada. Nós não temos até agora um quadro nacional sobre a violência nas escolas. Temos estudos específicos, como por exemplo de bullying. Mas precisamos de um quadro geral para que possamos ter políticas públicas mais efetivas, de uma forma nacional.

E temos que perceber que existem programas contra bullying, para pessoas com deficiência, para colocar a ensino da história e cultura afro-brasileira – que pouco está acontecendo por sinal. Estamos fazendo leis, como se a Justiça fosse resolver a questão. Não é assim. Acho que é preciso colocar em cheque também a formação que é oferecida aos professores. Precisamos mudar essa situação.

iG: Você coordenou algumas pesquisas que incluíam a violência contra os homossexuais em escolas. Há dados atualizados sobre o assunto? 

Andei pesquisando e existem algumas pesquisas recentes, mas geralmente elas trabalham com conceito de bullying. E isso é complicado e restringe a ideia. Porque bullying é violência entre os pares. Se há violência com professores na escola, isso não é mais bullying, é violência. Essas pesquisas se restringem porque trabalham com esse conceito, mas que é muito discutível.

A questão da sexualidade é muito complicada, a escola não está preparada para lidar com o tema, e os alunos não estão preparados para não serem preconceituosos. Não podemos nos esquecer que vivemos em uma sociedade machista. Então existe uma série de preconceitos, mas principalmente a homofobia. E ela ainda é escondida pela tolerância mascarada, que é complicada. É ensinado que temos que ter tolerância, mas “tolerar é aguentar” e a relação das pessoas não pode ser de suportar.
Dos preconceitos, ela acaba sendo a mais grave porque permeia a sexualidade de qualquer um. Dos adolescentes, dos jovens, dos professores. E tem um aspecto muito violento, porque essas pessoas recebem apelidos, são motivos de piada. Sofrem tanto que abandonam a escola e isso vemos constantemente.

iG: Como o ambiente escolar deveria lidar com a questão? 

A escola não sabe bem como atuar nessas ocasiões, nem quando a coisa acontece. Existe toda uma coisa de prevenção que deveria acontecer nas escolas, mas que não acontece, só acontece quando a situação chega ao extremo. Tudo é levado como se fosse brincadeira, quando na verdade acaba gerando uma dor muito grande.


Reportagem retirada na íntegra:





quarta-feira, 20 de novembro de 2013

PROFESSORA DEFENDE TESE E CONQUISTA TÍTULO DE 1º DOUTORA TRAVESTI DO PAÍS


18/08/2012 -10h35 - Atualizado em 18/08/2012 - 12h18.

Do G1 CE




Cearense estudou a aceitação de travestis nas escolas.
Trabalho foi apresentado na Universidade Federal do Ceará nesta sexta.




Luma Andrade na defesa de tese nesta sexta-feira (17) na Universidade Federal do Ceará 

(Foto: Igor Grazianno/UFC)




A professora cearense Luma Andrade defendeu tese nesta sexta-feira (17), em Fortaleza, e se tornou aos 35 anos a primeira travesti a ter título de doutorado no país. A banca de cinco professores que avaliaram o trabalho durante três horas indicou o material à publicação, segundo Luma. “Para além da nota, a indicação para publicação de um livro é ainda mais importante porque mostra que eles consideraram o trabalho de extrema relevância'', disse. Luma pretende agora seguir carreira política e preparar-se para o pós-dourado.

A doutora em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) estudou o tratamento dado a travestis em escolas de três cidades cearenses para elaborar a tese ''Travestis na Escola: Asujeitamento e Resistência à Ordem Normativa'' . Nas páginas da tese, ao pesquisar 95 casos, Luma diz ter visitado a própria história. Segundo ela, o estudo conclui que há uma ''evasão involuntária'' de travestis nas escolas cearenses e, que em geral, ''a família aceita e a escola não''.

Filha de agricultores analfabetos, Luma nasceu João Filho Nogueira de Andrade na cidade de Morada Nova, a 163 quilômetros de Fortaleza, mas no dia da mulher de 2010, ganhou o direito de mudar os documentos sem a operação de mudança de sexo. “Canalizei toda a energia para os estudos e, assim, fui conquistando respeito de todos. Busquei no estudo uma alternativa de vida melhor”, afirmou.

Aos 18 anos, Luma passou no vestibular para o curso de Ciências da Universidade Estadual do Ceará (Ceará), no campus de Limoeiro do Norte. Em 1998, foi aprovada no concurso para professor efetivo da rede municipal de Morada Nova e também começou a ensinar em escolas estaduais e particulares e depois obteve o título de mestre em Desenvolvimento do Meio Ambiente em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Com o título de mestre, em 2003, ela prestou concurso para a rede estadual de ensino de Aracati e, de quatro vagas, foi a primeira e única aprovada. 


 

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