Iracy Paulina (novaescola@atleitor.com.br)
João Guilherme pode ir a qualquer lugar da escola, pois ela tem rampas por todos os lados. O pai conseguiu uma cadeira adaptada para o filho estudar. Tirando as dúvidas da criançada sobre o que é deficiência física, os professores ajudam João Guilherme a construir um caminho sem obstáculos para o saber.
"Não consigo subir esses degraus para ir até a classe...mas com a rampa e a ajuda dos meus amigos posso chegar lá" João Guilherme dos Santos, 7 anos. Foto: Maurício Moreira
João
Guilherme dos Santos, 7 anos,demorou para nascer. O atraso no parto
causou-lhe paralisia cerebral, comprometendo a parte motora do corpo.Com
8 meses, ele começou a ser atendido em hospital especializado e fez
terapia na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de São
Luís, onde mora. Mas, ao atingir a idade para iniciar a Educação
Infantil, a família colocou-o em escola regular. A diretora da primeira
creche que visitou não queria aceitá-lo, alegando não ter
estrutura."Conheço as leis que garantem os direitos do meu filho", disse
o pai, Manuel Carlos Soares dos Santos. Com esse argumento, a matrícula
foi efetuada.
Agora no Ensino Fundamental, João Guilherme estuda
na Unidade Integrada Alberico Silva. Ele e o pai levam duas horas para
chegar até lá, de ônibus, e outras duas para voltar para casa. Pequeno
comerciante,Manuel adaptou sua rotina para que o filho possa conviver
com crianças sem deficiência:"Ele progride a cada dia.Com uma boa
educação, João pode ter uma vida melhor e lutar por seus direitos". Aplicação
para isso não falta ao menino."Ele é muito inteligente", atesta a
professora Sandra Helena Nascimento Sousa. Sim, ela teve muito medo de
aceitá-lo em sua turma."Uma criança que não anda é um trabalho a mais:
tem que dar lanche, levar ao banheiro...Tenho alunos pequenos e não
queria me ausentar por muito tempo da classe", conta. O pai se
prontificou a ajudar e, mesmo insegura por não se sentir capacitada para
lidar com a deficiência, Sandra aceitou o desafio.
"O professor
regular precisa saber se a criança tem alguma restrição médica que a
impeça de fazer atividades dentro ou fora da sala, acompanhar seu estado
de saúde e conhecer os efeitos dos medicamentos que ela está tomando",
explica Eliane Mauerberg-deCastro, coordenadora do Programa de Educação
Física Adaptada da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro,
interior de São Paulo. "E a escola deve garantir o acesso físico à
sala."Para isso, Sandra teve o apoio do grupo de atendimento especial da
Secretaria de Educação do município, que a colocou a par da história de
João e levou material específico para ele - como a prancheta magnética
para formar palavras, acoplada à mesa de estudos.
Alguns alunos
perguntavam se João era doente. Nas rodas de conversa, a professora
falou sobre diferenças: "Expliquei que ele era inteligente, mas
aprenderia de outra forma, já que as pessoas não são iguais e têm
capacidades e limitações próprias".Todos se esforçam para ajudar João
Guilherme e ficam em silêncio para ouvi-lo falar, pois ele ainda tem
dificuldade para se expressar.
Marcos usa lápis adaptado com espaguete de piscina: as professoras improvisaram o reforço para que o aluno pudesse escrever com firmeza. Foto: Maurício Moreira
Na cadeira, mas sem rodas
O
maior desafio das crianças com deficiência física não está na
capacidade de aprender, mas na coordenação motora."Geralmente, elas têm
dificuldade para se movimentar, escrever ou falar. Se estiverem
atrasadas no desenvolvimento intelectual, é porque não tiveram uma
educação apropriada", diz Eliane, da Unesp. Marcos Nantes Coutinho, 9
anos, por exemplo, tem dificuldade em memorizar e os especialistas
acreditam que é porque ele não consegue registrar os novos aprendizados.
Por isso, as professoras da 2a série da EE Olinda Conceição Teixeira
Bacha, em Campo Grande, retomam várias vezes os conteúdos e querem que
ele tenha aulas de apoio na sala de recursos de uma escola vizinha.
Na
classe, Marcos é atendido pela parceria afinada de Cristina Encina de
Barros, a professora regente, e Yara Mara Barbosa de Oliveira, a
itinerante, que percorre as escolas que têm alunos com deficiência. Toda
quarta feira elas conversam sobre os avanços do menino e os desafios que
ele ainda tem de superar, repassam a programação de estudos e fazem as
adaptações necessárias ao garoto. A comunicação aberta entre os
profissionais também inclui conversas com assistentes sociais,
coordenadores e médicos. Outra estratégia é usar material concreto e
imagens. O menino aprende as palavras com um alfabeto móvel, feito com
letras recortadas em cartolina, e já monta termos com até três sílabas.
Como tem dificuldade em segurar o lápis,muito fino, as professoras
improvisaram um reforço com um pedaço de espuma tipo espaguete de
piscina.
Marcos usa andador, baba e tem dificuldade para falar.
Até os 5 anos, ele freqüentou a escola de Educação Infantil da
Associação Pestalozzi, onde era assistido por fisioterapeuta,
fonoaudióloga, terapeuta ocupacional e psicóloga. Esta última aconselhou
a mãe, Ana Flávia Nantes Zuza, a colocá-lo numa creche regular, como
forma de prepará-lo para ingressar no Ensino Fundamental.
Na
escola, Marcos ganhou autonomia. Durante o ano passado, ele se sentava em
cadeira adaptada com apoio para os braços, onde ficava com a postura
largada. Como extensão do tratamento terapêutico, a especialista Yara
fez uma experiência: colocou-o numa carteira igual à dos demais alunos,
encostada à parede. Isso ajudou-o a sustentar o tronco para não
escorregar, a ter uma postura melhor e a se equilibrar.Mas a cadeira de
rodas é importante e não deve ser evitada."É preciso aceitar que ela, ou
uma prótese, faz parte da vida da criança com deficiência física. É
como usar óculos", diz Eliane.Marcos já não depende tanto do andador:
ele o deixa na porta da classe e apóia-se na fileira de carteiras, até o
lugar onde se acomoda.Mostra progressos também nas idas ao banheiro -
antes, ela tinha que levá-lo, agora só precisa acompanhá-lo até a
entrada. Conquistas simples, mas que mostram às professoras que elas
estão no caminho certo. "Qualquer criança pode progredir. Basta a gente
ensinar com interesse, atenção e amor", afirma Cristina.
Vinícius, com seu par, na hora da leitura: "Adoro ler jornais e livros que tenham figuras e sejam bem coloridos e bonitos". Foto: Maurício Moreira
Vínculo afetivo
Para
ajudar Vinícius Guedes dos Santos, 7 anos, a superar as restrições de
movimentos que ele tem por conta da má-formação das pernas e dos braços,
a Escola Básica Donícia Maria da Costa, em Florianópolis, designou uma
auxiliar. Ela o ajuda nas atividades em classe,o acompanha ao banheiro e
dá o lanche. Ele escreve devagar, mas tem cadernos caprichados. E adora
livros. {9] Na hora de ler,Vinícius escolhe os títulos na
caixa-biblioteca, sempre em lugar de fácil acesso. "Como ele tem bom
nível de leitura e escrita, ainda ajuda os colegas menos avançados",
conta Gislene Prim, professora da 2a série.
Desde a 1a série ela se preocupou em fortalecer os laços afetivos para Vinícius sentir confiança na turma. E conseguiu: na assembléia de classe, a turma sugeriu a criação de um parquinho com balanço adaptado só para Vinícius poder brincar também.
Nas aulas de Educação Física, o professor Luiz Augusto Estácio incentiva a socialização das crianças por meio de brincadeiras que todos participem."A experiência de jogar bola sentado na cadeira ou no chão pode ser um desafio diferente e divertido para toda a garotada", exemplifica. Com isso, a criança com deficiência começa a se sentir mais à vontade entre os colegas. A mãe de Vinícius, Adriana Guedes dos Santos, atesta a desenvoltura que o filho tem hoje: "O Vinícius era tímido e quase não conversava. Agora, ele já faz até bagunça e, quando quer alguma coisa, não tem vergonha de pedir".
Desde a 1a série ela se preocupou em fortalecer os laços afetivos para Vinícius sentir confiança na turma. E conseguiu: na assembléia de classe, a turma sugeriu a criação de um parquinho com balanço adaptado só para Vinícius poder brincar também.
Nas aulas de Educação Física, o professor Luiz Augusto Estácio incentiva a socialização das crianças por meio de brincadeiras que todos participem."A experiência de jogar bola sentado na cadeira ou no chão pode ser um desafio diferente e divertido para toda a garotada", exemplifica. Com isso, a criança com deficiência começa a se sentir mais à vontade entre os colegas. A mãe de Vinícius, Adriana Guedes dos Santos, atesta a desenvoltura que o filho tem hoje: "O Vinícius era tímido e quase não conversava. Agora, ele já faz até bagunça e, quando quer alguma coisa, não tem vergonha de pedir".
Atividades e estratégias
BEM-ESTAR FÍSICO
Procure saber sobre o histórico pessoal e escolar do aluno com
deficiência, informe-se com a família e o médico sobre o estado de saúde
e quais os efeitos dos remédios que ele está tomando. Esse conhecimento
é a base para sugerir qualquer atividade que exija esforço físico. Os
exercícios podem, por exemplo, interferir na metabolização de
medicamentos.
HABILIDADES BÁSICAS
HABILIDADES BÁSICAS
Para ajudar a criança com deficiência física nas habilidades sociais,
escolha atividades relacionadas às exigências diárias, como deitar,
sentar e levantar-se, arremessar e pegar objetos, parar e mudar de
direção. Proponha jogos nos quais o aluno faça escolhas (passar por cima
ou por baixo de cordas ou elásticos), para que ele perceba o controle
que pode ter sobre o corpo.
INTERAÇÃO
INTERAÇÃO
Estimule o contato da criança com deficiência com os colegas,
permitindo a troca de idéias, a expressão de emoções e o contato físico
para auxiliar nas diversas atividades.
PEÇAS IMANTADAS
PEÇAS IMANTADAS
Use material concreto e lousa com letras magnéticas para facilitar a
formação de palavras e a memorização quando houver restrição no
movimento dos braços.
Publicado em , Outubro 2006. Título original: Sem obstáculos para o saber.
Reportagem retirada na íntegra:
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