26/06/2013
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04h30
GUSTAVO SIMON
DE SÃO PAULO
"Você é mesmo cega?", pergunta o chef Gordon Ramsay, que acumulou 11
estrelas no guia "Michelin", à americana de ascendência vietnamita
Christine Ha, 33. O apresentador do "Masterchef", reality show com cozinheiros amadores,
estava diante de um ceviche de caranguejo que Christine preparara na
terceira edição do programa. Um ceviche, nas palavras de Ramsay, temido
pela verborragia pouco elogiosa, "visualmente deslumbrante". Pois, em setembro do ano passado, ela (a única cega!) desbancou outros
17 cozinheiros e venceu o "MasterChef", que foi ao ar nos EUA. Ainda não
há previsão para ser transmitido no Brasil.
| Karime Xavier/Folhapress | ||
| A musicoterapeuta Helena D'Angelo manipula alimentos na cozinha Dedo de Moça, em São Paulo. |
Fazia parte do prêmio, somado a um valor equivalente a R$ 560 mil, a
publicação de um livro. "Recipes from My Home Kitchen: Asian and
American Comfort Food" (receitas de casa: "comfort food" asiática e
americana) acaba de chegar às livrarias dos Estados Unidos. O lançamento estimula o debate sobre o desafio que é cozinhar -cortar
ingredientes, usar o fogão, montar pratos bonitos- sem um dos sentidos. Para desvendar esse desafio, a reportagem entrevistou Christine Ha e
acompanhou dois deficientes visuais na cozinha, clientes da Fundação
Dorina Nowill para Cegos.
A musicoterapeuta Helena D'Angelo, 29, que você vê na foto acima,
cozinhava quando criança e quis manter o hobby depois de perder a visão,
aos 13 anos. A delicadeza, até lentidão de movimentos, não escondem sua desenvoltura
entre panelas, facas e o fogão. "Pelo olfato, sei se o tomate no molho
está cru. E brinco que um bolo assando tem três cheiros -o mais gostoso é
o dele pronto", diz.
COZINHA DE SENTIDOS
"Escuto as bolhas na água para saber se ela ferveu; sinto o perfume do
alho antes de ele queimar; toco a carne para saber se está crua,
crestada ou ao ponto." É com essa espécie de passeio pelos sentidos que Christine Ha responde à
pergunta de quais táticas desenvolveu para cozinhar sem poder enxergar.
| Greg Gayne/Divulgação | ||
| Christine Ha faz um preparo para empanar frangos na semifinal do reality show "MasterChef", exibido no ano passado |
A americana começou a se aventurar entre panelas e talheres quando ainda enxergava e morava sozinha, durante a faculdade. Era um modo de tentar recuperar os temperos e sabores asiáticos da mãe,
imigrante vietnamita no Texas (EUA), com mão boa para a cozinha -ela
morreu quando Christine tinha 14 anos, e não deixou receitas escritas. Uma doença autoimune, que em 1999 a deixou cega (ela enxerga como se
houvesse uma grossa nuvem de vapor à frente), não interrompeu essa
procura. Daí, como conta à Folha, Christine valoriza tanto a "comfort food".
Depois de surpreender os espectadores ao vencer o reality show
"MasterChef", ela lançou no mês passado seu livro de receitas asiáticas.
A seguir, leia trechos da entrevista.
Folha - Você tinha visão perfeita quando aprendeu a cozinhar. De que sente falta hoje?
Christine Ha - De ver os ingredientes -seu frescor, suas cores
vibrantes. Há ingredientes com os quais eu não tinha mexido até perder a
visão; jamais saberei como é trabalhar com eles.
Quais?
O uni (ouriço-do-mar), por exemplo. Isso vale também para técnicas -eu não estava habituada a filetar peixes.
Você apurou outros sentidos depois que ficou cega?
Agora, mais do que antes, os uso mais. Mas o mais importante é o paladar -ele me ajuda a desvendar texturas e temperatura.
Sabores e aromas da sua infância foram potencializados?
Eles ainda me trazem memórias de quando eu podia enxergar. E muitas vezes são ainda mais intensos, sim.
No programa, a apresentação dos pratos é fundamental. Como alcançar isso?
Em casa isso não importa, mas, se estou servindo outras pessoas -amigos
ou os jurados do programa-, confio na memória: posso lembrar de como
cores se parecem, o contraste entre elas; sinto as coisas com a mão e as
visualizo mentalmente.
Como você lida com os perigos da cozinha, como facas e fogo?
Sou cautelosa, meticulosa, me mexo mais devagar. Prefiro ser lenta e segura do que afobada e machucada.
Você achava que poderia vencer o programa, apesar da deficiência?
Eu não pensava nisso, nem me importava. Preocupava-me mais com a jornada
do que com seu resultado. Estava lá para aprender e ser a melhor no que
pudesse, apesar de minhas limitações.
Você parece ter se especializado em "comfort food". Como define essa cozinha?
É a comida que dá nostalgia, que invoca emoções e faz de algo simples,
como comer, uma experiência transformadora. Eu levo minhas memórias para
a cozinha. O livro é minha maneira de dividir esse meu mundo com os
outros.
Reportagem retirada na íntegra:
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