09/07/2013 - 06h00 - ATUALIZADA EM: 09/07/2013 - 11h32 - por Depoimento a Igor Zahir.
Ela sofreu um Acidente Vascular Cerebral aos 22 anos. Ficou tetraplégica e muda. Perdeu o emprego, o namorado, os amigos e hoje, 18 anos depois,mexe só o dedo médio da mão esquerda. Mas resolveu não parar. É fluente em três idiomas, cursa o segundo pós-doutorado, têm diversos livros e artigos publicados e coleciona prêmios.
Tenho duas vidas. Não consigo explicar de outra forma o que vivo.
Eu era uma jovem bastante normal. Pertencia a uma família de classe
média e era uma garota bonita. Aos 17 anos, passei em cinco vestibulares
e comecei a cursar Farmácia e Bioquímica na Universidade de São Paulo
(USP). No fim do primeiro ano da faculdade, ganhei minha primeira
paixão: um carro vermelho, lindo!Uma surpresa inesquecível, presente de
aniversário do meu pai, que se tornou meu companheiro no início dos anos
90. Nesse mesmo período, conheci o Lucas, um judeu loirinho e
simpático, formado em engenharia pela USP. Minhas amigas comentavam a
diferença entre nós. Lucas era tido como feio e nerd, eu era popular.
Mas, não ligava.
Ele foi um grande amor, mas assim como água e óleo não se misturam,
percebi logo que com judeus e católicos o mesmo pode acontecer. Ficamos
três anos juntos, mas os pais do Lucas nunca me aceitaram. Nosso amor,
entretanto, parecia maior que isso. Em 1991, passei a tomar pílulas
anticoncepcionais com a orientação da minha médica ginecologista. Falei a
ela que eu era fumante, mas naquele momento, não percebemos o risco que
eu corria.
Eu era uma jovem dinâmica e ativa. No mesmo ano,
resolvi começar a trabalhar. Transferi o curso de farmácia para o
período noturno e arrumei um emprego em uma empresa de higiene bucal, em
que fui efetivada. Todos os dias, cruzava a cidade com meu carro para
trabalhar e estudar. E ainda arrumava tempo para correr pela USP nos
fins de tarde e fazer aulas de ginástica aeróbica e musculação. Aos fins
de semana, eu fazia passeios românticos com meu namorado ou saía com
minha turma de amigos. Gostava de dançar, viajar, beber, conversar,
fazia tudo o que me dava vontade.
Em meados de 1993, comecei a ter dores de cabeça que, apesar de
desaparecerem com aspirinas, estavam ficando cada vez mais frequentes.
Decidi marcar uma consulta com a ginecologista, queixei-me das dores,
mas ela disse que não era nada grave. Passei um ano com o problema. E,
num domingo, dia 1 de maio de 1994, vi o Ayrton Senna morrer. A data me
marcou demais. Não que eu imaginasse que, no dia seguinte, seria eu a
próxima vítima – de um tipo diferente de morte, mas morte. Na segunda,
acordei, me vesti e fui trabalhar. Trabalhei o dia todo, não senti nada
de anormal. No fim da tarde, fui buscar meu irmão na USP, para irmos
para casa. Quando chegamos, me apressei em ir até o banheiro para
escovar os dentes. Na sequência, iria ao shopping. Mas antes de sair do banheiro, senti uma forte tontura e gritei por socorro.
Quase imediatamente entrei em convulsão. É uma sensação horrível!
Tentava controlar meus movimentos, mas os músculos não paravam de
tremer. Minha família ficou apavorada. Meu pai massageava meu coração.
Meu irmão cuidava para eu não morder a língua, colocando uma escova de
dente na minha boca. Enquanto isso, minha mãe ligava para o resgate.
Alguns vizinhos ouviram a confusão e vieram ajudar. Me pegaram no colo e
me colocaram num carro. São mais que vizinhos, são queridos amigos de
quem até hoje recebo muito carinho e apoio. Quase não conseguia falar e,
naquela confusão, não sabia se minha família viria atrás do carro ou
não. Fui para o pronto-socorro Municipal de Santana. No caminho, pedia
calma com a mão, não tinha a mínima ideia do que estava por vir.
Agora entendo porque, em um pronto-socorro municipal, cuja fila é
enorme, fui atendida logo. Colocaram-me em uma maca e levaram-me direto
para a consulta. Na sala do médico, havia algumas enfermeiras que
delicadamente tiraram meu relógio, gargantilha e brincos. Precisavam ser
delicadas para eu não me machucar, pois meu corpo trepidava. Minha
família me achou no pronto-socorro, depois de percorrer todos os
hospitais da região. Ao lado da maca, minha mãe segurava a minha mão, e eu me perguntava quem seria aquela pessoa.
De olhos fechados e com muito esforço, só conseguia falar mamãe e
papai. Ironicamente, as primeiras palavras que aprendi seriam as últimas
que eu diria.
Aos poucos ia chegando a hora da metamorfose.
Inconscientemente, eu dava adeus aos meus longos cabelos aloirados, aos
meus passos, à minha voz (que nunca mais ninguém ouvirá), aos
movimentos, às danças nas festas, ao meu querido carrinho e a mais um
milhão de coisas. Fui transferida de ambulância para um hospital
particular. Apenas meu pai me auxiliava, com um balão de oxigênio. Era
difícil de respirar.
No novo hospital, um enfermeiro me pôs em uma maca. Levaram-me para um
quarto. Tiraram minha roupa e me vestiram com um daqueles camisolões de
hospital. A convulsão continuava. Lembro-me dos médicos ficarem
discutindo o diagnóstico em volta da cama. Fui ficando atordoada, senti
um mal-estar repentino e vomitei.Uma enfermeira que me acompanhava falou para o colega dela: “Ela não passa desta noite”.
Depois dessa frase, já não lembro de nada. Entrei em coma. Durante esse
período, não tinha consciência de onde estava, tudo parecia um sonho.
Acordei dois meses depois, em outro hospital, careca, muda,
tetraplégica, com sonda nasogástrica, fraldas e cicatrizes. Quando saí
do coma, achei que tudo só podia ser um pesadelo. Longo e cheio de
detalhes, mas um pesadelo. Podia jurar que não tinha estado em coma, mas
na minha cama, dormindo.
O PESADELO
A verdade, no entanto, era outra. Sofri um Acidente Vascular Cerebral e minha nova realidade era aquela: feia, muda e sem movimentos.
Lembrava da última vez que tinha me visto no espelho antes do AVC e
sentia desespero. Saudade, tristeza, abandono... senti tudo,
principalmente revolta e ódio. A combinação do cigarro com
anticoncepcional aumenta muito o risco de a mulher sofrer um AVC e eu e
minha ginecologista deveríamos ter percebido isso. Alguns especialistas
me disseram que a pílula foi 100% responsável pela trombose que levou ao
rompimento de uma das veias do meu cérebro. Outros acham que não foi o
fator principal. Porém, a mistura da pílula com o cigarro deveria ter
sido evitada e eu deveria ter dado atenção às dores de cabeça que não
passavam. Se tivesse agido de outra forma, hoje estaria andando.
Depois da Trombose Cerebral e de ter ficado tetraplégica, vivi três anos sobre uma cama hospitalar. Durante esse período, observei quase todo mundo se afastando de mim. Lentamente, fui esquecida pelos meus 150 “queridos amigos”.
Cada um que me deixou, me preencheu com uma mágoa eterna. O Lucas foi
um deles. Ele foi diminuindo a frequência das visitas, até parar de me
ver. Chorei, revivi todo meu passado, procurei culpas e culpados e
pensei: morri, acabou tudo!
O que eu não sabia é que, na verdade, estava começando uma segunda vida. Não
tinha saída. Eu poderia chorar a vida inteira pelo romance acabado e
pela tetraplegia ou parar de chorar e começar a viver. Optei por viver:
aos trancos, aos farrapos, aos pedaços. Mas o tempo tem uma
força estranha, e com ele comecei a escrever meus pensamentos
amargurados com o movimento de um único dedo, o médio da mão esquerda.
Em um notebook, digitava no meu colo, na cama. No começo, cheguei a
passar um dia para completar uma página. Depois de quase um ano de
esforço, terminei meu primeiro livro: Sem Asas ao Amanhecer. Hoje, ele
está na décima primeira edição. Mas não me contentei. Escrevi outro
chamado A Doce Sinfonia de Seu Silêncio.
Como sou muito ativa e odeio ficar parada, voltei a estudar.
Fiz mestrado e publiquei um livro científico sobre cosméticos. Em 2006,
terminei o doutorado. Depois, fiz três anos de pós-doutorado, sempre na
USP, e ganhei vários prêmios acadêmicos. Também aprendi sozinha inglês,
italiano e espanhol. Há três anos me mudei para João Pessoa. Meu irmão
passou em um concurso e começou a trabalhar na Universidade Federal
daqui. Em pouco tempo, estávamos todos juntos. Logo procurei um modo de
contribuir com a instituição. Estou no segundo ano de um novo
pós-doutorado, já participei de mais de 30 congressos, tenho artigos
publicados no exterior e sou revisora de revistas científicas.
O COTIDIANO
Me sustento com o dinheiro do meu trabalho e levo uma vida confortável.
Contrato pessoas que me auxiliam nas tarefas diárias. Preciso de tudo:
de um copo de água, de um banho, que me tirem e ponham na cama. É assim
que vive uma mulher que mexe só um dedo. Uma vida nada fácil, mas é a
única que eu tenho; e a vida não é como queremos, é como é. E, mesmo com essa limitação, me considero feliz. Amo o que faço. Uso estatística e química para analisar estruturas moleculares. Quando estou trabalhando, me sinto muito bem.
Durmo tarde, 23h, 24h, 1h. Dependendo do trabalho, acordo cedo, 6h ou 7h. E já coloco o biquíni! No
meu prédio tem um espaço legal para tomar sol e eu aproveito o solzinho
da manhã que é uma delícia. Tomo na minha cadeira-de-rodas “de sol”.
Tenho três cadeiras:uma levinha, muito usada para banhos de sol, viagens
e passeios em geral; uma mais alta e mais pesada, que uso para
trabalhar no computador e uma motorizada, muito confortável. Depois do
sol, tomo banho, vou para o computador e trabalho até a noite. Faço uma
pausa para malhar e me alongar (montei uma miniacademia no meu quarto) e
volto para o trabalho.
Adoro um churrasco com os amigos à beira da piscina ou passar o dia na praia, com cervejinha.
Apesar da dependência física, tenho pensamentos e emoções próprias,
como todo mundo. Às vezes, rola uma paquera no shopping ou em uma praia,
mas o mais frequente é pela internet, porque a web é meu modo de fazer
laços sociais. Ao mesmo tempo, desenvolvi a sensibilidade de entender
nas entrelinhas e distinguir uma paquera de armadilhas. Se vejo que é
sério, engato um namoro. Até noiva já fui duas vezes: por dois anos, do Mateus, e quase sete, do Fabrizio. Quando falo isso, as pessoas se perguntam sobre o sexo. É normal, já que não sou uma pessoa comum. Mas sou mulher e tenho relações como qualquer outra. Aprendi a dar e receber carinho e prazer.
Se você pensar que eu me comunicava piscando e hoje escrevo num teclado normal, acho que estou bem. Apesar dos meus limites físicos, produzo trabalhos de qualidade, reconhecidos e até invejados dentro da comunidade científica.
Infelizmente, não posso prestar concurso na faculdade, porque não falo.
Esse é meu sonho, ter um emprego na faculdade. Sei que não tenho
condições de dar aulas, mas as faculdades deviam ter vagas para
pesquisadores. É o meu sonho. Aprendi que nessa vida o que importa é ser feliz.
Se eu encontro momentos prazerosos com minhas dificuldades, muita gente
sã e cheia de dinheiro pode não encontrar. O que ontem era
indispensável para mim, hoje é fútil. Ser feliz tornou-se ao mesmo tempo algo muito mais simples e complexo.
Reportagem retirada na íntegra:
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