25/08/2013 - 03h50
De São Paulo
Nicolas tinha 14 anos quando decidiu ir sozinho à papelaria do bairro. A
mãe, Flávia, permitiu, mas escondida atrás de árvores e postes,
acompanhou a trajetória do filho até o local. Sete anos se passaram e hoje, Nico, 21, que tem traços de autismo,
trabalha em uma biblioteca em Brasília e pensa em morar sozinho.
Para muitas mães de jovens como Nicolas, é quase impossível pensar em vida independente para os filhos com deficiência intelectual. Não é o que acontece com a economista Flávia Poppe, a biblioteconomista Ana Maranhão e a administradora Monica Mota, que querem que os filhos tenham moradia própria e independente.
Inspiradas em experiências no Reino Unido, criaram o Instituto JNG
(iniciais dos filhos João, Nicolas e Gabriella) com a meta de discutir e
desenvolver um projeto piloto de moradia independente para jovens com
deficiências intelectuais, como seus filhos. "As famílias e a sociedade falam em inclusão na escola, no trabalho, mas
se esquecem da moradia. Talvez por não acreditarem que seja possível.
Mas é possível, basta acreditar e dar meios", afirma Ana Maranhão, mãe
de João, 19.
Autista, João é filho único. "Como vai ser quando não estivermos mais
aqui? Quem vai cuidar dele? É preciso construir alternativas saudáveis
para que eles vivam bem após a morte de seus responsáveis." Por falta de informações e de uma rede de acolhimento, os pais tendem a
superproteger os filhos com deficiência intelectual, tratando-os como
crianças mesmo já adultos. "É erro. Confundem os limites entre proteger e impedir que seus filhos
se desenvolvam", diz Flávia, que preside o Instituto JNG, que será
inaugurado na terça-feira, no Rio. Segundo a economista, é preciso criar um modelo de moradia e de assistência que se adapte à realidade do país. No Brasil existem 2.611.536 pessoas com deficiência mental/intelectual, 1,5% da população, segundo o IBGE.
MORADIAS ASSISTIDAS
Flávia e as amigas fizeram uma série de visitas a moradias assistidas no
Reino Unido. "Lá, o morador deficiente passa por avaliação em que as
habilidades são valorizadas. E recebem suporte para lidar com as
deficiências." Por exemplo, há moradores com mais dificuldade para atividades como
fazer compras. Outros não conseguem preparar um lanche sozinhos. Então,
recebem ajuda pontual.
Na Inglaterra, a maioria das moradias assistidas é subsidiada pelo
governo e funciona em edifícios de seis a oito apartamentos. Apenas um
cuidador coletivo fica 24 horas no local e é responsável por todos. Para Ana Maranhão, esse modelo dá autonomia. "Se você reúne numa mesma
casa três ou quatro, com um cuidador, a tendência é haver um nivelamento
para baixo e não um estímulo às habilidades de cada um." Ela dá o exemplo de como o filho, que não faz a barba sozinho, tenta progredir. "Ele já tentou, mas se machuca. Agora, tenta com o barbeador, mas os
pelos são ralos. Se estivesse numa casa com mais três, é possível que o
cuidador fizesse a barba de todos"
Reportagem retirada na íntegra:
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