13/11/2013 -
07h00 -
Atualizado em 13/11/2013
- 15h04.
Carolina Paes
Do
G1 de Mogi das Cruzes e Suzano
Pai sonha ver filho andar e se baseou em modelo feito na
Argentina.
Jovem teve paralisia cerebral, identificada aos 11
meses.
Uma máquina
de 2 metros de altura e cerca de 40 quilos ganhou lugar especial na casa do
ambulante José Dimas da Silva, em Santa Isabel (SP).
Para recebê-la foi preciso mudar os hábitos da família: onde antes era a sala
virou quarto e vice-versa. “Foi bom ganhar um quarto novo. Aqui é mais bonito,
arejado e me deixa mais perto da máquina”, diz o estudante Hugo Aparecido da
Silva. Finalmente, um ano após o pai de Hugo, José Dimas, decidir criar uma
máquina que ajudasse o filho a andar, o equipamento começou a ser usado pelo
jovem de 16 anos.
Hugo nunca
andou sozinho. Uma experiência que desde o começo de novembro está chegando
cada vez mais perto de ser realizada. “Estou andando pela quarta vez já”, dá
risada o estudante. “Nunca fiz isso. É gostoso e diferente, mas muito bom.
Quero mais. Não imaginava que andar mexia todas essas partes”. Aos 11
meses a família descobriu em Hugo uma paralisia cerebral, que afetou a parte
motora dos membros inferiores do adolescente.
A ideia do
simulador veio depois que o pai dele encontrou na internet um equipamento
feito na Argentina. Segundo José Dimas, um mecânico fez uma máquina parecida
para o filho. Ele tentou comprar, mas custaria US$ 30 mil. Apesar de não ter
habilidades práticas, o pai de Santa Isabel, tinha o mesmo combustível que o
pai argentino: o desejo de ver o filho caminhando. Depois de alguns meses de
trabalho, de investir R$ 2,5 mil e de contar com a ajuda de amigos, Dimas
esperou ansioso para que o filho pudesse usar o aparelho. O uso do equipamento
só foi liberado depois que Hugo se recuperou de uma cirurgia feita no joelho,
em julho deste ano. Só então as sessões de fisioterapia voltaram e o simulador
pode ser testado.
O
fisioterapeuta que acompanha Hugo, Silvio Massaki Igarasi, se impressionou com
a história. “Nunca tinha visto algo assim sendo usado para caso de
paralisia, em que não se tem uma resposta muscular. Foi a primeira vez. Normalmente
usamos esse tipo de máquina em atletas para dar mais mobilidade. Não imaginava
que alguém poderia fazer um estímulo mecânico e usar um motor para fazer a
função do cérebro. Achei muito interessante”, diz.
Movimentando as pernas
O G1 acompanhou
uma sessão e pode comprovar os efeitos do "cérebro mecânico" criado
pelo pai, que tem apenas um sonho: ver o filho andar. “Com ela meu filho fez
algo que nunca tinha feito na vida e isso que é importante. Já é um sonho
realizado, o que vier é lucro. Estamos muito animados”, diz Dimas. Já foram 15
sessões de fisioterapia, mas apenas há quatro o estudante tem usado o
simulador. Além de ter que fazer alguns ajustes no equipamento, como a
colocação de fivelas nas costas e pernas para dar mais segurança e conforto
para Hugo, foi preciso cuidar de alguns detalhes antes de estrear a máquina. “O
uso dela atrasou em um mês, pois tivemos que curar algumas feridas no corpo por
ele ter ficado muito tempo deitado no pós-operatório. Além disso tivemos que
fazer com que os joelhos dele dobrassem de novo com exercícios manuais”,
explica o fisioterapeuta.
Desde que
inventou o simulador, Dimas tinha receio do equipamento não ser aprovado. Um
medo que dia a dia foi ficando cada vez mais distante. “Estava com medo dos
médicos recusarem, mas toda a equipe olhou a foto que levei no dia da consulta
e gostou. Ai você fica aliviado e contente. Depois disso minha esperança na
máquina aumentou mais. Por alguns minutos achei que não iam aprovar”, lembra. A
opinião do fisioterapeuta só confirmou as expectativas do ambulante. “Quando as
sessões começaram aqui em casa perguntei para ele o que precisávamos para
melhorar o Hugo. Ele respondeu muita caminhada. Ai mostrei a máquina.”
Dimas não sai nem um só minuto do lado do filho
durante fisioterapia (Foto: Carolina Paes/ G1)
E em pouco tempo de uso todo o esforço já vem dando resultado. Hugo vem
correspondendo bem ao tratamento sem dores na perna e com alguns efeitos
positivos. “Nas últimas vezes ele está sentindo as pernas formingando, o que no
caso dele é um sinal de que os nervos estão melhorando a sensibilidade. Depois
disso vem o estímulo motor e a contração muscular. Ai estamos perto para ele
conseguir andar”, diz Igarasi.
O fisioterapeuta ainda explica que tudo isso também depende das
respostas do organismo e dos estímulos. É preciso muita persistência. “Tratar o
Hugo é bom porque ele é um paciente motivado que tem força de vontade e procura
sempre te ajudar quando precisamos dar uma reposta positiva. Além de tudo, ele
tem força para vencer mais essa etapa da paralisia cerebral que é bem
complicada. Nem todos os pacientes têm essas respostas que ele está tendo. Ele
tem bons resultados apesar da doença e chances de um dia andar sem
muleta, mas é preciso muito estímulo. Não temos certeza que ele vai ter toda a
recuperação que esperamos, mas depende da persistência”, afirma o
fisioterapeuta.
Hugo usa a máquina pela quarta vez (Foto:
Carolina Paes/ G1)
De acordo com Igarasi isso deve acontecer pelo estímulo que a máquina
causa na articulação do tornozelo, do joelho e do quadril. “Apenas com
exercício manual não conseguimos isso. O estímulo da máquina é contínuo e ajuda
na contração da musculatura. Esperamos então desenvolver mais a área motora do
cérebro dele para desenvolver a marcha”, explica.
Mas para o pai essa resposta do corpo já é a faísca necessária para ele
não parar. “ A resposta foi boa. Fico feliz. O formigamento é bom porque é um
sinal que está mexendo algo lá. Está dando certo então”, afirma o ambulante. Bem
calmo e tranquilo, diferentemente do pai agitado, Hugo revela sua opinião sobre
a nova 'queridinha da família'. “ Eu gostei de usar. Gosto de ficar nela. No
começo tinha medo de cair”, desabafa. “Mas depois criei coragem e fui. A
vontade de melhorar é maior. Quero sair da cama e devo isso a meu pai também. A
sensação das pernas mexendo sozinhas, como se estivesse andando, é gostoso”.
Dimas e o filho orgulhosos dos resultados da
máquina (Foto: Carolina Paes/ G1)
Liberdade
Três vezes na semana, de 20 a 30 minutos. Esse é o tempo permitido para
Hugo usar o simulador. A velocidade, segundo o fisioterapeuta, é baixa,
de menos de 10 km/h. As sessões de fisioterapia começam sempre com a
movimentação dos joelhos e um alongamento.
“Com ela, tenho a
sensação de liberdade também porque ali estou caminhando sem as muletas"
-
Hugo Aparecido da Silva, 16 anos
Mas apesar da máquina ser grande e cheia de cabos, botões, travas de
segurança, guindaste e fivelas, Hugo não a larga por nada. “Eu gosto de andar
nela e só não gosto quando tenho que sair. Quero sempre ficar mais”, diz. “Com
ela, tenho a sensação de liberdade também porque ali estou caminhando sem as
muletas. O Silvio pede que na hora que estou nela me imagine andando de
verdade. Ai nessa hora penso que estou caminhando sozinho pela cidade. É um
incentivo para ir mais rápido. Hoje acredito que isso possa ser possível mesmo
e cada vez mais me orgulho do meu pai”, afirma Hugo.
E como não poderia deixar de ser, o ambulante, mecânico, pai, ganha
mais uma função. Dessa vez ele vira assistente de fisioterapia e não para um só
minuto. Mexe daqui. Levanta dali. Questiona o profissional. Anima o filho e
olha para o canto da casa com a certeza de que os passos reais de Hugo não
estão distantes de serem vistos. “Sofremos juntos e em cada vitória estamos
unidos também. O que importa é ver o Hugo feliz e caminhando. Sei que isso não
está longe e não posso parar.”
Reportagem retirada na íntegra:
Uma máquina
de 2 metros de altura e cerca de 40 quilos ganhou lugar especial na casa do
ambulante José Dimas da Silva, em Santa Isabel (SP).
Para recebê-la foi preciso mudar os hábitos da família: onde antes era a sala
virou quarto e vice-versa. “Foi bom ganhar um quarto novo. Aqui é mais bonito,
arejado e me deixa mais perto da máquina”, diz o estudante Hugo Aparecido da
Silva. Finalmente, um ano após o pai de Hugo, José Dimas, decidir criar uma
máquina que ajudasse o filho a andar, o equipamento começou a ser usado pelo
jovem de 16 anos.
Hugo nunca
andou sozinho. Uma experiência que desde o começo de novembro está chegando
cada vez mais perto de ser realizada. “Estou andando pela quarta vez já”, dá
risada o estudante. “Nunca fiz isso. É gostoso e diferente, mas muito bom.
Quero mais. Não imaginava que andar mexia todas essas partes”. Aos 11
meses a família descobriu em Hugo uma paralisia cerebral, que afetou a parte
motora dos membros inferiores do adolescente.
A ideia do
simulador veio depois que o pai dele encontrou na internet um equipamento
feito na Argentina. Segundo José Dimas, um mecânico fez uma máquina parecida
para o filho. Ele tentou comprar, mas custaria US$ 30 mil. Apesar de não ter
habilidades práticas, o pai de Santa Isabel, tinha o mesmo combustível que o
pai argentino: o desejo de ver o filho caminhando. Depois de alguns meses de
trabalho, de investir R$ 2,5 mil e de contar com a ajuda de amigos, Dimas
esperou ansioso para que o filho pudesse usar o aparelho. O uso do equipamento
só foi liberado depois que Hugo se recuperou de uma cirurgia feita no joelho,
em julho deste ano. Só então as sessões de fisioterapia voltaram e o simulador
pode ser testado.
O
fisioterapeuta que acompanha Hugo, Silvio Massaki Igarasi, se impressionou com
a história. “Nunca tinha visto algo assim sendo usado para caso de
paralisia, em que não se tem uma resposta muscular. Foi a primeira vez. Normalmente
usamos esse tipo de máquina em atletas para dar mais mobilidade. Não imaginava
que alguém poderia fazer um estímulo mecânico e usar um motor para fazer a
função do cérebro. Achei muito interessante”, diz.
Movimentando as pernas
O G1 acompanhou
uma sessão e pode comprovar os efeitos do "cérebro mecânico" criado
pelo pai, que tem apenas um sonho: ver o filho andar. “Com ela meu filho fez
algo que nunca tinha feito na vida e isso que é importante. Já é um sonho
realizado, o que vier é lucro. Estamos muito animados”, diz Dimas. Já foram 15
sessões de fisioterapia, mas apenas há quatro o estudante tem usado o
simulador. Além de ter que fazer alguns ajustes no equipamento, como a
colocação de fivelas nas costas e pernas para dar mais segurança e conforto
para Hugo, foi preciso cuidar de alguns detalhes antes de estrear a máquina. “O
uso dela atrasou em um mês, pois tivemos que curar algumas feridas no corpo por
ele ter ficado muito tempo deitado no pós-operatório. Além disso tivemos que
fazer com que os joelhos dele dobrassem de novo com exercícios manuais”,
explica o fisioterapeuta.
Desde que
inventou o simulador, Dimas tinha receio do equipamento não ser aprovado. Um
medo que dia a dia foi ficando cada vez mais distante. “Estava com medo dos
médicos recusarem, mas toda a equipe olhou a foto que levei no dia da consulta
e gostou. Ai você fica aliviado e contente. Depois disso minha esperança na
máquina aumentou mais. Por alguns minutos achei que não iam aprovar”, lembra. A
opinião do fisioterapeuta só confirmou as expectativas do ambulante. “Quando as
sessões começaram aqui em casa perguntei para ele o que precisávamos para
melhorar o Hugo. Ele respondeu muita caminhada. Ai mostrei a máquina.”
Dimas não sai nem um só minuto do lado do filho
durante fisioterapia (Foto: Carolina Paes/ G1)
E em pouco tempo de uso todo o esforço já vem dando resultado. Hugo vem
correspondendo bem ao tratamento sem dores na perna e com alguns efeitos
positivos. “Nas últimas vezes ele está sentindo as pernas formingando, o que no
caso dele é um sinal de que os nervos estão melhorando a sensibilidade. Depois
disso vem o estímulo motor e a contração muscular. Ai estamos perto para ele
conseguir andar”, diz Igarasi.
O fisioterapeuta ainda explica que tudo isso também depende das
respostas do organismo e dos estímulos. É preciso muita persistência. “Tratar o
Hugo é bom porque ele é um paciente motivado que tem força de vontade e procura
sempre te ajudar quando precisamos dar uma reposta positiva. Além de tudo, ele
tem força para vencer mais essa etapa da paralisia cerebral que é bem
complicada. Nem todos os pacientes têm essas respostas que ele está tendo. Ele
tem bons resultados apesar da doença e chances de um dia andar sem
muleta, mas é preciso muito estímulo. Não temos certeza que ele vai ter toda a
recuperação que esperamos, mas depende da persistência”, afirma o
fisioterapeuta.
Hugo usa a máquina pela quarta vez (Foto:
Carolina Paes/ G1)
De acordo com Igarasi isso deve acontecer pelo estímulo que a máquina
causa na articulação do tornozelo, do joelho e do quadril. “Apenas com
exercício manual não conseguimos isso. O estímulo da máquina é contínuo e ajuda
na contração da musculatura. Esperamos então desenvolver mais a área motora do
cérebro dele para desenvolver a marcha”, explica.
Mas para o pai essa resposta do corpo já é a faísca necessária para ele
não parar. “ A resposta foi boa. Fico feliz. O formigamento é bom porque é um
sinal que está mexendo algo lá. Está dando certo então”, afirma o ambulante. Bem
calmo e tranquilo, diferentemente do pai agitado, Hugo revela sua opinião sobre
a nova 'queridinha da família'. “ Eu gostei de usar. Gosto de ficar nela. No
começo tinha medo de cair”, desabafa. “Mas depois criei coragem e fui. A
vontade de melhorar é maior. Quero sair da cama e devo isso a meu pai também. A
sensação das pernas mexendo sozinhas, como se estivesse andando, é gostoso”.
Dimas e o filho orgulhosos dos resultados da
máquina (Foto: Carolina Paes/ G1)
Liberdade
Três vezes na semana, de 20 a 30 minutos. Esse é o tempo permitido para
Hugo usar o simulador. A velocidade, segundo o fisioterapeuta, é baixa,
de menos de 10 km/h. As sessões de fisioterapia começam sempre com a
movimentação dos joelhos e um alongamento.
“Com ela, tenho a
sensação de liberdade também porque ali estou caminhando sem as muletas"
-
Hugo Aparecido da Silva, 16 anos
Mas apesar da máquina ser grande e cheia de cabos, botões, travas de
segurança, guindaste e fivelas, Hugo não a larga por nada. “Eu gosto de andar
nela e só não gosto quando tenho que sair. Quero sempre ficar mais”, diz. “Com
ela, tenho a sensação de liberdade também porque ali estou caminhando sem as
muletas. O Silvio pede que na hora que estou nela me imagine andando de
verdade. Ai nessa hora penso que estou caminhando sozinho pela cidade. É um
incentivo para ir mais rápido. Hoje acredito que isso possa ser possível mesmo
e cada vez mais me orgulho do meu pai”, afirma Hugo.
E como não poderia deixar de ser, o ambulante, mecânico, pai, ganha
mais uma função. Dessa vez ele vira assistente de fisioterapia e não para um só
minuto. Mexe daqui. Levanta dali. Questiona o profissional. Anima o filho e
olha para o canto da casa com a certeza de que os passos reais de Hugo não
estão distantes de serem vistos. “Sofremos juntos e em cada vitória estamos
unidos também. O que importa é ver o Hugo feliz e caminhando. Sei que isso não
está longe e não posso parar.”
Reportagem retirada na íntegra:



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