28/08/2013 - 05h31.
Jaqueline Sordi
Marina se inspirou na própria vida para estudar, em pós-graduação, impactos e atuações em sala de aula
Pesquisa acadêmica sobre docentes que mudaram de sexo foi defendida na última sexta-feira e aprovada com conceito A e distinção.
Foto:
Fernando Gomes / Agencia RBS
Há mais de duas décadas ela leciona para crianças e adolescentes. Parte desse tempo como Mário, parte como Marina. Após transformar o corpo, a professora de 42 anos transformou a
história de vida pessoal em inspiração para o tema da dissertação de
mestrado. A mestre que chamou a atenção de pais, alunos e professores ao sair
de férias como Mário e retornar como Marina, em 2006, hoje transforma
sua experiência em pesquisa acadêmica. Problematiza um tema raramente
debatido: a presença de transexuais no espaço letivo.
Foi na faculdade de Educação da UFRGS, sob orientação do professor e
doutor Fernando Seffner, que Marina encontrou espaço para desenvolver a
pesquisa. Pela análise da vida pessoal e acadêmica de outras sete
professoras — cinco transexuais e duas travestis — de diferentes cidades
do Brasil, Marina buscou identificar os impactos educacionais da
atuação delas.
— Passamos a compreender melhor o que ocorre quando um transexual
leciona, a partir da forma como a sexualidade entra junto na sala de
aula — conta o orientador.
A partir disso, foi-se configurando o que Marina denominou de uma
"pedagogia do salto alto", expressão que deu nome à dissertação. Nesta
modalidade pedagógica, elementos que dizem respeito ao corpo, ao gênero e
à sexualidade da professora, tradicionalmente silenciados, trazem
impactos no desempenho docente.
Alunos se sentem mais livres para falar de sexualidade
Marina destaca que, em todos os relatos, foi apontada uma proximidade na relação professor-aluno. — Essas professoras são marcadas por uma sexualidade muito mais
evidente, e isso dá mais liberdade, principalmente aos adolescentes, a
falar sobre o assunto. Conforme Seffner, a atuação dessas profissionais provoca uma
"desordem" na transferência que normalmente ocorre da figura materna
para a professora, o que põe crianças e professores em um lugar que não é
comum:
— Por isso, elas precisam ser excelentes profissionais, já que sabem,
pela história de vida, que são vulneráveis. Estas professoras fizeram
um grande esforço pela sua qualificação. Para Esalba Silveira, assistente social do Programa de Transtorno de
Identidade de Gênero do Hospital de Clínicas, o bom professor não passa,
necessariamente, pela questão de identidade de gênero:
— O que é relevante em sala de aula e na relação com os alunos é a
sua compreensão e capacitação e, talvez por isso, esses profissionais se
destaquem, já que os esforços para sua aceitação, em todos aspectos da
vida, são maiores.
Marina destaca que os entrevistados mencionaram situações de
preconceito por parte de colegas de profissão, o que não ocorreu em sala
de aula. Conforme Esalba, isso se dá porque adolescentes e crianças acompanham
um movimento de maior aceitação às diferenças. Outras gerações estariam
mais presas a modelos anteriores.
O despertar da vontade de estudar o tema
Natural de Montenegro, Marina é a quinta entre cinco irmãos. Apesar
de ter nascido com sexo masculino e sido registrada como Mário Reidel,
confessa que nunca se identificou com o gênero. Na infância, violência,
abuso e solidão ocuparam o espaço das amizades e brincadeiras. Com a
adolescência e a falta de espaço para debater a sua falta de
identificação sexual no âmbito familiar e escolar, o problema cresceu: — Só sabia que era diferente.
Como uma fuga ao ambiente hostil que imaginava encontrar no Ensino
Médio, decidiu cursar magistério. Aos 17 anos, formou-se e, no ano
seguinte, já começou a lecionar. Foram mais de 10 anos alfabetizando
crianças como Mário. Neste período, além da mudança de cidade — passou a
dar aulas na escola Rio de Janeiro, na Capital — mudou também de
gênero. Prestes a completar 30 anos, o então professor tomou a decisão
de se assumir como mulher. Durante as férias de julho, começou a
transformação. Após injeções de hormônios e cirurgias, Mário deixou as
calças compridas e reapareceu de vestido, salto alto, com maquiagem e um
novo nome.
— Outros professores já haviam conversado com os alunos e explicado o
que aconteceria. Eles já estavam sendo preparados, mas quando retornei,
foi um rebuliço — conta.
Novo comportamento dos alunos chamou a atenção
Os olhares curiosos e questionadores dos alunos chamaram a atenção da
nova Marina, que observou atentamente a reação deles frente à
transformação. Naquele período, ela lecionava artes na escola para
crianças de 10 a 17 anos. Marina conta que os mais novos foram
compreendendo a mudança em etapas, a partir do que os mais velhos
explicavam. Após alguns meses, uma alteração no comportamento deles
despertou o interesse da professora: passaram a se aproximar mais dela.
— Notei que eles começaram a recorrer mais a mim para esclarecer dúvidas, tanto sobre conteúdo quanto questões pessoais.
Somando a experiência de vida às novas percepções no âmbito escolar,
Marina decidiu se aprofundar no tema. Ela é graduada em Artes pela
Feevale, pós-graduada em Psicopedagogia pela Faculdade Castelo Branco e,
agora, mestre.
Difícil compreensão
Enquanto desenvolvia sua pesquisa, a mestre conquistou o direito de
mudar a sua identidade — ingressou no curso como Mário, e receberá o
diploma como Marina. Para a coordenadora do Programa de Transtorno de Identidade de Gênero
do Hospital de Clínicas, Maria Inês Lobato, apesar dos avanços na
aceitação das diferenças, ainda há muito desconhecimento sobre o tema na
sociedade contemporânea, e por isso situações como a de Marina são de
extrema importância. A própria definição de transexualidade ainda é dificilmente
compreendida. Segundo a especialista, o transexual é aquele que tem
convicção que nasceu com o sexo oposto ao seu biológico, à sua aparência
física.
Reportagem retirada na íntegra:
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