Deficiente visual manipula peça do projeto A
Célula ao alcance da mão, do Museu de Morfologia da UFMG.
Tudo começou em 1989 numa sala de aula do curso
de fisioterapia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Luiz Edmundo
Costa estava com dificuldades de acompanhar as aulas de citologia e histologia.
Ele é deficiente visual e as aulas exigiam a observação de imagens ao
microscópio.
A ausência de material didático especial e de
literatura em braille motivou professores e alunos a buscarem alternativas para
que Luiz Edmundo, hoje fisioterapeuta no Hospital Oftalmológico da UFMG,
compreendesse os conteúdos apresentados nas aulas. A solução veio com a
confecção de pranchas nas quais o material biológico era reproduzido através de
desenhos em relevo, que permitiam o reconhecimento de formas, dimensões,
proporcionalidade e localização das células.
Do sucesso da iniciativa veio o desejo de
ampliar a experiência para outros deficientes visuais, visando tornar mais
lúdico, atraente e integrador o ensino de ciências e biologia. Nascia o Museu
de Ciências Morfológicas (MCM) da UFMG. Aberto ao público desde 1997, o Museu é
um centro de educação de ciências da saúde.
A metodologia do MCM propõe o estudo do
organismo humano em seus diferentes níveis, de forma interativa e estimulante,
explorando sentidos como tato e audição. Os modelos tridimensionais e em relevo
representam uma célula, todos os tipos de tecidos, fases do desenvolvimento
embrionário e fetal, órgãos e sistemas orgânicos humanos, em dimensões próximas
do natural ou ampliadas, visando facilitar a compreensão de cada estrutura.
“A inclusão de pessoas com necessidades
especiais de aprendizado nas atividades do MCM não se restringe à
acessibilidade ou a programas especiais e esporádicos. Ela tem sido fruto do
desenvolvimento de atitudes de acolhida no dia a dia, da busca concreta de
soluções para os problemas surgidos e compartilhamento dos resultados
alcançados, da abertura para um novo e continuado aprendizado com o diferente”,
afirma Maria das Graças Ribeiro, coordenadora geral do Museu.
Um curso de morfologia humana aberto à comunidade
Voltado inicialmente para as necessidades dos
deficientes visuais, os modelos expostos no museu foram finalizados na cor
branca. O reconhecimento das peças podia ser feito através de suas diferentes
texturas, relevos, cavidades, concavidades. Legendas explicativas em braille facilitavam
sua compreensão e possibilitavam o trânsito relativamente independente do
público-alvo. Mais tarde, com objetivo de facilitar a compreensão da
constituição do organismo humano para todos os tipos de público, optou-se por
colorir as peças, levando em conta a diferenciação das estruturas também
através da forma e das cores.
“Com isso passamos a atender estudantes com
visão sub normal, com déficit de aprendizagem e tantos outros, facilitando a
identificação dos órgãos e a fixação da aprendizagem também por processo
associativo”, explica Ribeiro. O público do Museu é formado principalmente
pelos alunos do Departamento de Morfologia do Instituto de Ciências Biológicas
da UFMG e pelos estudantes do ciclo básico de escolas públicas e privadas.
Para os deficientes visuais, o estudo de
ciências têm sido, quase sempre, restrito à audição de fitas, gravadas por
familiares, amigos ou voluntários. Essa forma de aprender afasta os estudantes
com deficiência visual dos demais colegas e desestimula o seu aprendizado.
Segundo Maria das Graças Ribeiro, os poucos deficientes visuais que conseguem
chegar ao ensino superior não encontram aparato à sua formação profissional,
como bibliografia em braille, material didático para as aulas práticas,
oficinas e laboratórios adequados.
A Coleção Didática de Modelos Biológicos
Tridimensionais foi desenvolvida para atender às especificidades desse público,
mas não se destina só a ele. “Trata-se de um material didático de uso universal
no ensino de ciências. O MCM propõe que esses estudantes estejam nos
laboratórios de ensino de ciências junto com os colegas que podem enxergar”,
afirma ela.
O Museu utiliza também um sistema de
áudio-descrição das peças, destinado a todos os estudantes, possibilitando o
debate simultâneo do conteúdo e a utilização de ambas as mãos na exploração dos
modelos biológicos criados. “Queremos que a interatividade exercitada nos
laboratórios de ciências seja levada a outras áreas, ampliada na escola e
levada para além dela, com a mesma naturalidade”, completa a professora.
Fonte: Patrimônio
Reportagem retirada na íntegra:
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