PAULA CHOUZA
DO EL PAÍS
Publicado:
- Há sete anos, Justiça havia interditado Ricardo Adair, deixando-o legalmente incapaz de administrar seus bens
- Tribunal elaborou uma sentença simples e com linguagem de fácil entendimento
Ricardo Adair: vitória na Justiça Reprodução de vídeo
CIDADE DO MÉXICO - Quando Ricardo Adair
Coronel Robles nasceu, o médico disse a seus pais que a criança tinha um
retardo mental. “O que vocês puderem fazer por ele, façam”, concluiu o médico
descrente de que o bebê, que nasceu com problemas respiratórios, conseguiria
traçar seu próprio caminho. Hoje, este jovem de 25 anos, natural da Cidade do
México, é a primeira pessoa com deficiência intelectual a conseguir que a
Suprema Corte reconhecesse seu direito de decidir por si mesmo - um precedente
que vai ajudar àqueles que virão depois dele.
- Eu me sinto muito feliz, otimista.
Foram quatro votos contra um, é uma grande oportunidade. O mais importante,
como diz a sentença, é que me deram razão, (concluíram) que estávamos certos e
fizemos a coisa certa - comenta Robles, um dia depois de conhecer o resultado
do julgamento.
Sentado no terraço de um restaurante e
acompanhado por seu pai, Ricardo se mostra desenvolto, próximo e ciente do
avanço histórico que o seu julgamento representa.
- Ele só foi diagnosticado com a
síndrome de Asperger aos 18 anos - relembra o pai, Alejandro Coronel, que
explica que o transtorno é um tipo de autismo que cria dificuldades de
interação social. - Uma criança autista costuma se afastar, mas Ricardo era o
oposto. Ele adorava tocar nosso rosto e se aproximar da gente.
Até o fim da adolescência de Ricardo,
Alejandro e sua mulher ouviram outros tipos de diagnósticos, como
hiperatividade e, finalmente, "uma espécie de autismo". Ao completar 18 anos e a pedido dos
pais, um juiz o interditou, ou seja, deixando-o sob a guarda de um tutor por
falta de aptidão para cuidar de si mesmo e administrar seus bens. Em 2011, o
jovem entrou com uma liminar, que agora foi reconhecida pela Suprema Corte do
país.
- Nós fizemos isso para protegê-lo, para
que ninguém pudesse denunciá-lo, por exemplo, no metrô, por assédio - explica
Alejandro, com um tom arrependido.
Ricardo, que estudou Turismo em uma
universidade particular da capital, gostaria de trabalhar em uma agência de
viagens, prestando informações ou lidando com computadores. A rede pública de
ensino superior não tem espaço para pessoas como ele.
- Todos os programas são focados na
formação técnica - reclama o pai. - Mas as universidades não os integram.
Os anos de colégio também não foram um
simples. Ricardo estudou em uma escola particular, mas que não era
especializada no ensino a crianças com necessidades especiais.
- No ensino médio, ele sofria bullying
dos colegas, mas talvez pelas suas características isso não o afetou tanto como
aos outros meninos da idade dele - pondera o pai.
O jovem é consciente de suas limitações
e explica:
- É difícil me adaptar ao novo, não
saber o que vai acontecer. Se não entendo palavras, sinais ou gestos, preciso
de ajuda para seguir em frente. Além disso, interpreto as coisas de forma
literal. Não consigo entender trocadilhos, é preciso que me expliquem na
primeira vez que os escuto.
- Às vezes chegam a tratar meu filho
como se ele fosse um estrangeiro - diz Alejandro. Ricardo concorda. Exatamente por isso, a Suprema Corte
emitiu uma resolução pioneira, que inclui duas páginas escritas em linguagem
coloquial.
- Nelas é explicado ao Ricardo de forma
simples quais são seus direitos e por que ele os conquistou. A primeira parte
fala diretamente com ele. Metaforicamente, ela olha nos olhos dele e lhe expõe
cada um dos motivos - comenta o advogado do jovem, Andrés Aguinaco Gómez Mont.
"Ao analisar o seu caso, o Tribunal
decidiu que você, Ricardo Adair, está certo. Em pouco tempo, um juiz vai
chamá-lo para pedir a sua opinião sobre a sua deficiência", começa o
texto. Atualmente bolsista em um museu, amante
dos esportes e aficionado pelo time de futebol Los Pumas, Ricardo se vê daqui a
cinco anos trabalhando por conta própria ou "se tiver uma companheira,
também com ela". Seu pai olha para ele com admiração, sabe que ter chegado
até aqui foi resultado de muito esforço:
- Foram 25 anos em que a minha esposa o
levou de um hospital para o outro, para a terapia, cursos.
O dinheiro era um fator importante
quando o assunto era a educação de Ricardo. Apesar da falta de apoio financeiro
do governo federal, a questão não era simplesmente de recursos.
- Muitos pais desistem, não lutam. E
lutar é fundamental, ainda que você viva, desde seu nascimento, como se
estivesse num duelo - sugere Alejandro. Ricardo, ao seu lado, concorda
novamente.
Reportagem retirada na íntegra:

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