09/11/2013 - 08h00 - Atualizado em 09/11/2013
- 08h00.
Luísa Gomes
Do G1 GO
Ela quer cursar
design de interiores na UFG: 'Minha vida está nessa prova'.
Estudante de 21 anos faz leitura labial para entender as aulas no cursinho.
Amanda Oliveira dos Santos vai prestar o vestibular da UFG pela segunda vez
(Foto:
Luísa Gomes/G1)
A estudante Amanda Oliveira dos Santos,
de 21 anos, é surda desde os 5 anos e integra os mais de 30 mil candidatos que
realizam a primeira fase do vestibular da Universidade Federal de Goiás (UFG)
neste domingo (10). A jornada para tentar cursar design de interiores começou
há um ano e meio, quando deixou família e amigos e se mudou de Rondonópolis
(MT) para Goiânia. "É a minha vida que está nessa prova, meu sonho",
afirma.
Amanda conta que até os 5 anos ouvia
normalmente. “Um dia fui assistir TV, minha mãe gritou meu nome várias vezes e
não dei nenhum sinal. Ela foi reclamar que tinha me chamado e foi aí, quando
ela estava na minha frente falando comigo, que olhei para a boca dela e percebi
que tinha algo de errado. Não ouvia nada e comecei a chorar”, relata.
Desde então, mãe e filha
percorreram diversas cidades do país em busca de tratamentos e fonoaudiólogos.
“Quem vê pensa que estávamos passeando. Não foi nada fácil, sofremos muito, mas
demos a volta por cima”. O diagnóstico foi perda auditiva bilateral profunda. Sem
aparelho auditivo, Amanda afirma que consegue escutar no máximo 20%. Em um
primeiro momento, o uso do equipamento não foi bem aceito pela estudante: “Por
várias vezes, eu recusava usar aparelho. Tinha vergonha porque não me sentia
uma pessoa normal. Hoje, eu venci o preconceito, não tenho a mínima vergonha de
usar. Pelo contrário, tenho é orgulho”. O aparelho eleva o percentual de
audição a até 90%. Ainda assim, a estudante relata que há obstáculos, como o
barulho de telefone, músicas ou pessoas que falam de costas. “É complicado. Eu
não consigo ouvir perfeitamente e preciso fazer leitura labial."
Professores
tiveram que adaptar aulas para atender
necessidades de Amanda (Foto: Luísa Gomes/G1)
Vestibular
Esta não é a primeira vez que
Amanda encara o desafio do vestibular. Ela já cursou ciências contábeis, quando
ainda morava no Mato Grosso, mas o alto custo da universidade não possibilitou
que ela seguisse os estudos. Mudou-se para Goiânia, onde se sustenta com um salário
mínimo, valor recebido como benefício do governo. A estudante se dedica em
tempo integral à preparação para o vestibular. A motivação é o sonho de cursar
design de interiores, onde espera exercer o dom natural para o desenho.
“Sinto-me ansiosa, não pensei que ficaria assim. Mas estou me acalmando, claro.
Pois, com nervosismo tudo dá errado, correto? Estou otimista e me sinto
preparada", diz.
Para atender a aluna com surdez, os
professores do cursinho tiveram que adaptar suas aulas e até o conteúdo
audiovisual exibido em sala, que requer legendas. Segundo a professora de
literatura Larissa Leal, a maior mudança é no costume de falar enquanto escreve
no quadro negro, de costas para a turma.“Não é muito fácil adaptar quando você
já tem um tempo de sala de aula e está acostumado a fazer assim. Tenho sempre
que me lembrar de falar de frente para ela”, afirma a professora.
Segundo Amanda, a receptividade dos
professores e dos colegas faz diferença em sua preparação para o vestibular. “É
incrível, as pessoas são humanas. Mesmo que não me conheçam tão bem, eles
querem ajudar no que puderem”. Para ela, as barreiras impostas pela surdez não
devem ser motivo para desistir de um sonho. "Se a pessoa luta pela
deficiência auditiva, tem que lutar também para conseguir entrar numa boa
universidade. Se você quer uma coisa, luta até conseguir, mesmo que o tempo
passe", aconselha.
Amanda está ansiosa, porém confiante para as provas:
"Me sinto preparada"
(Foto: Luísa Gomes/G1)
Reportagem retirada na íntegra:



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